Animais que por aqui passaram e suas histórias

 
Gaio a tomar banho num lago.
GaioEste gaio foi recolhido em juvenil e criado por mim. Nunca me esquecerei os chamamentos e aquela cabeça a sair do ninho artificial a relmar comida sempre que me aproximava. Quando começou a aguentar-se nas patas e a tentar os seus primeiros voos, saltava de manhã para a minha cama para reclamar comida. Eu acordava então com um bico aberto e esfomeado perto da minha cara. Uma vez adulto, pu-lo em liberdade, um momento muito feliz para mim e para ele. Porém, em vez de se ir embora e juntar-se aos deles, a partir daquele dia, nunca mais me deixou. Passou a dormir numa azinheira ao lado de casa e de madrugada vinha pôr-se à janela do meu quarto, agarrando-se às separações dos vidros chamando-me. Sabia onde era meu quarto.
Se ficava muito tempo dentro de casa, percorria as janelas todas à minha procura. Muitas vezes deixava-o entrar (quando estava sozinho em casa). Tomava o pequeno-almoço comigo, provando tudo o que eu comia, só não gostava era de leite.
Durante o dia seguia-me por todo lado, fosse eu a pé, de bicicleta ou até mesmo de mota. Divertia-se a esconder parafusos e outros objectos que eu utilizava nos meus trabalhos debaixo de panos na oficina ou até mesmo nas minhas mangas ou no meu colarinho.
Um dia deve-me ter seguido par longe e perdeu-se. Desapareceu por algum tempo. Até que um dia fui visitar um vizinho que morava a uns 5 km. Quando ia a passar em frente à casa ouvi o chamado de um gaio. Olhei para o lado e qual não foi o meu espanto de ver "o" gaio numa gaiola. Tinha sido recolhido fraco, esfomeado, não que não soubese alimentar-se sozinho. Estava colado à rede e chamava-me, aflito. Havia alegria e desespero no chamamento (fiquei a conhecer um pouco da linguagem deles). É claro que nesse dia voltou comigo para casa.
Quando voltei da minha viagem à África que durou três meses, o gaio não andava por perto. Pensei que se tinha cansado de esperar, que era tempo demais sem eu aparecer e foi-se embora. Estava eu muito enganado! nessa tarde, ouvi um gaio muito zangado por cima da minha cabeça. Lá estava ele em cima de um fio a olhar para mim e a reclamar que nem uma esposa ralha com o marido que esteve nos copos. Eu bem que falava com voz doce para ele, mas ele não quis vir ter comigo e continuou a ralhar mais um pouco. Nesse dia não me veio cumprimentar, mas no dia seguinte tinha-lhe passado o mau humor e voltou tudo ao normal. Bem... quase. Foi aí que descobri que era uma fêmea. Não entendia porque queria que eu a seguisse para o cimo de uma árvore. Mas foi o que fiz e qual não foi o meu espanto de encontrar ali um ninho iniciado. A partir daí tive que participar também na construção do ninho. Dava-lhe galhos e ela ia pô-los lá no ninho. O ninho ficou muito bem feito e moderno: havia ali pedaços de arame e corda, coisa que um gaio nunca utilizaria normalmente. Pôs três ovos que chocou pacientemente, mas que não eclodiram nunca. Então decidi pedir um ovo ou dois a outros ninhos de gaio, mas era já tarde na primavera e o único ninho que encontrei foi de cinco estorninhos recém nascidos. Peguei em dois e substitui os ovos do gaio pelos estorninhos bebés. Ela ficou surpresa com o aspeto dos supostos filhos, mas depois de a encorajar e de a felicitar,  lá os aceitou. Criou-os com muita alegria e dedicação. Na idade da puberdade eles foram-se embora e não voltaram. São aves que andam em bando e muito são muito desconfiados.
No ano seguinte decidi ir estudar para a Grã-Bretanha, mas pesava-me a consciência de a abandonar outra vez. Ela estava outra vez a chocar no mesmo ninho e na véspera de eu me ir embora, ela desapareceu... Terminou assim uma história que durou três anos.
 
Ganso a dar brilho às penas para ficar bonito para as senhoras

Este ganso (macho) veio para a quinta muito jovem juntamente com uma fêmea. Infelizmente a sua companheira morreu e ele ficou só. Também quis o destino que partisse uma pata, não sei como. Talvez uma aterrissaagem forçada num dia de mau tempo? Então tive-o preso durante uns tempos com uma tala na pata e ia-lhe levar comida várias vezes ao dia. Quando conseguiu andar de novo, vinha muito a casa e afeiçoou-se muito à minha mãe. Entretanto eu tinha ido embora para a Grã-bretanha (outra vez) e a minha mãe adoptou-o.
Começou a segui-la por toda a parte e a defendê-la de intrusos. Atacava principalmente um primo meu que nos veio visitar nessa época, chegou a morder-lhe. Quando a minha mãe se deslocava de carro para o monte vizinho, ele sobrevoava o carro durante uns minutos e depois voltava e ficava à espera dela.
Um dia arranjamos-lhe uma noiva, e levamos ambos para o galinheiro que ficava a uns 400 metros da casa, mas ele era fiel à minha mãe e voltava à casa seguido da noiva desconfiada -não estava habituada a contactos humanos-.
Pouco a pouco foi-se apaixonando pela sua nova companheira e começou a dar-lhe mais atenção.

 
O Cordeiro aventureiro
Esta borrega era órfã e foi portanto criada a por nós. Borregas destas houve muitas por aqui quando havia ovelhas. Tinhamo-la numa arramada junto com as vacas. Claro que nos seguia também por todo lado. Entrava em casa, subia e descia as escadas que davam acesso para o terraço. Seguia também o cão que era um vadio e que a levava por todo lado. De vez em quando seguia o cão para tão longe que acabava por ficar lá se não dava pelo cão voltar e lá nos telefonavam os vizinhos a dizer que a nossa borrega estava perto do monte deles (estou a falar de distâncias de 2 km).

Quando adulta começou a ir para as pastagens com as vacas e quando tentámos reintroduzi-la no rebanho das ovelhas fugia delas com medo e refugiava-se perto das vacas.

 
Lebre juvenil à espreitar o que estou a fazer na mesa
Esta lebre foi-me trazida para impedir que os caçadores a matassem, pois ainda era bébé e há caçadores atiram sobre tudo o que mexe (excepto o que a trouxe, que também era caçador). Além de beber o leite que lhe dava e erva, também roía as almofadas e arranhava a carpete que era verde, cor erva. A almofada preferida dela era também verde.

Uma vez adulta, voltou para o seu habitat, teve muitos filhos e viveu feliz para sempre.

 
Os Milhafres (ou bútios)

Estes milhafres (?) foram-me trazidos em penugem por um agricultor. Estavam onde a debulhadora ia passar no meio de uma ceara de trigo, fazem o ninho no chão.
Criei-os com restos de carne que os talhos me davam. Embora os tivesse desde pequeninos e os alimentasse várias vezes ao dia, nunca mostraram o mínimo à vontade para comigo, sempre que me aproximava, deitavam-se de costas para poder arranhar com as garras potentes e picar ao mesmo tempo (defesa típica destes animais). Como não tinha luvas, tinha as mãos sempre todas arranhadas.
Quando chegaram à fase adulta soltei-os, mal sabiam voar coitados. Nunca mais os vi.

 
A Andorinha infiel

Por trás da casa há um casão onde as andorinhas nidificam todos os anos. Nesse ano a ninhada devia ser grande demais pois havia sempre um desgraçado a cair do ninho de uma altura de aproximadamente 3,5 m. A andorinha ainda não tinha penas desenvolvidas e mesmo assim conseguia sobreviver às quedas. Digo quedas no plural porque eu voltei a colocar a andorinha no ninho duas vezes. Depois da terceira queda percebi que não valia a pena, qualquer dia ainda era comido por um gato.
Resolvi então levá-la para casa e criá-la. Quando não tinha insectos à mão, dava-lhe arroz e parte do ovo, cozido e outras coisas que já não me lembro. Guardava-a no meu quarto. Passava o tempo numa caixa e quando começou a saber voar, poisava em cima de um peixe em bambu que tinha pendurado no quarto. Assim que eu entrava no quarto, vinha meter-se no meu ombro e metia conversa. Seguia-me pela casa.
Claro, como a todos os animais que socorri, chegou a altura de a devolver ao seu habitat. Juntou-se logo a outras andorinhas que estavam poisadas num fio e a partir de aí eu deixei de existir. Nunca mais me veio cumprimentar. Nem se despediu quando migrou.

 
A Águia passageira

Esta águia foi-me trazida como doente no início do verão. Fora encontrada em cima do telhado de uma casa. Mal voava e parecia muito débil. Não se mostrava agressiva. Não quis comer.
No outro dia estava muito melhor. Era apenas um juvenil muito cansado nos seus primeiros voos que necesitava descançar num lugar seguro. Assim foi e no outro dia de manhã, agradeceu e foi-se embora. Foi bonito vê-lo elevar-se a grande altitude e aos círculos à procura de uma corrente de ar quente.